Invisibilidade Feminina na Arquitetura

O machismo está enraízado na sociedade, infelizmente. Até nós mulheres temos que nos policiar para não replicar esses comportamentos tão "naturais" mas nada saudáveis. E não é diferente na realidade profissional das arquitetas. Apesar de sermos maioria dentro da profissão (há algum tempo aqui no Brasil) ainda somos invisíveis na nossa vida profissional. Mesmo as grandes arquitetas da história tiveram seu trabalho de alguma forma menosprezado, como contam as moças do coletivo Arquitetas Invisíveis. O coletivo foi criado por estudantes de arquitetura de Brasília, e lançado no dia 8 de março de 2014, para dar o devido reconhecimento a mulheres muito importantes no meio da arquitetura, urbanismo, paisagismo e design. Um passo importantissímo para abrir a discussão sobre esse assunto que nunca foi devidamente colocado na mesa. A Gabriela Farinasso, uma das fundadoras do coletivo topou nos ajudar com esta entrevista que você confere neste post.

Depósito Drops: O que nós como arquitetas podemos fazer para diminuir a ação do machismo nas nossas carreiras?
Gabriela - Arquitetas invisíveis: Acredito que como arquitetas é importante sair da sombra dos homens e aumentar nossa representatividade, tanto nos cargos políticos (sindicatos, federações e conselhos) como nos escritórios, obras e premiações. Não devemos mais aceitar um tratamento que não é de acordo com nossa competência profissional e não podemos abaixar a cabeça para situações de injustiça.
DD: O quanto essa cultura de “mulher não sabe nada de obra” contribuí para a insegurança das arquitetas? E como lidar com a falta de autoridade nessas situações profissionais?
G.AI- A falta de respeito com o trabalho das mulheres nas obras é algo que recorrentemente afeta nossa auto-estima e segurança, porque nossa capacidade é constantemente questionada. A sexualização do corpo da mulher está tão naturalizado em nossa sociedade que mesmo quando ocupamos um cargo de chefia há questionamentos sobre nossa competência por conta de nossa aparência. É importante que isso seja conversado e debatido amplamente, para que esse tipo de comportamento não seja mais tolerado em nenhuma esfera do nosso trabalho. Com isso só temos a ganhar, tanto na questão de qualidade de vida, cultivando relações de respeito e uma cultura de construção coletiva, quanto na qualidade do produto arquitetônico.
DD: O censo divulgado em 2013 na revista AU mostra que após certa idade o número de arquitetas diminuí na carreira e a proporção de homens aumenta, a que fatores vocês atribuem essa diminuição? Também no mesmo censo conforme o salário aumenta a porcentagem de mulheres que o recebem diminuí. A que fatores vocês atribuem essa discrepância? Poderia ser desistência da carreira, invisibilidade, falta de reconhecimento para alcançar cargos mais altos? Dificuldade em conciliar maternidade e carreira? 
G.AI: É difícil afirmar com certeza os fatores que causam essa disparidade, já que este não foi um dado da pesquisa. Existem pesquisas feitas em outros países que apontam para o machismo como causa estrutural, visto que não há oportunidades para mulheres subirem na carreira e elas acabam atuando em áreas paralelas (como economia criativa e carreira acadêmica) para complementar a renda, ou seja, abandonam a carreira de arquiteta. Há muitas denúncias informais aqui no Brasil que afirmam que mesmo com a formação de arquiteta, as mulheres acabam sendo designadas para tarefas secundárias, onde a tarefa de projetista e criação não faz parte do seu dia-a-dia. Também é importante a questão da maternidade, pois assim como nas outras profissões há essa falácia de que mães não se dedicam o suficiente ao seu trabalho e não podem ser confiadas com cargos de chefia.
Todas essas questões corroboram para um ambiente de trabalho pouco receptivo para as profissionais femininas, que além de lidarem com jornadas duplas e até triplas, recebem menos quando comparada aos homens e enfrentam a desconfiança diária com relação a sua competência profissional e a constante objetificação de seus corpos.
DD: Que conselho vocês dariam para as mulheres que desejam se tornar arquitetas?
G.AI: Enfrentem de cabeça erguida os desafios que aparecerem, porque eles vão aparecer. Não se deixem abalar pela falta de respeito e continuem desenvolvendo seus projetos com atenção e dedicação. Denunciem quando couber denúncia, apontem injustiças onde elas aparecerem, comemorem muito quando conquistarem algo e acreditem que vocês merecem sempre mais. O sucesso profissional e nossa saúde mental e física devem ser um horizonte plausível para todas as mulheres, não só para poucas exceções. E por fim, acreditem no que vocês fazem e façam o que vocês acreditam, não se deixem deturpar por essa lógica cruel que envolve não só nossas relações profissionais, mas toda a sociedade. Nosso papel como arquitetas é também construir um mundo mais justo e seguro, este é um desafio que precisamos enfrentar juntas.

Bom, obrigada Gabriela por compartilhar essas informações! Com certeza vamos estar mais atentas para nos posicionar firmemente contra essas situações e reverter ao máximo a ação do machismo nas nossas carreiras!

Até o proximo post!